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O Plano Educacional Individualizado (PEI) constitui-se como um documento pedagógico personalizado, concebido para atender às necessidades educacionais específicas de estudantes que demandam apoio especializado no ambiente escolar. Sua finalidade primordial é assegurar que cada aluno tenha acesso a uma educação justa e inclusiva, por meio da elaboração de uma estratégia de ensino adaptada que considere suas habilidades, dificuldades e, sobretudo, suas potencialidades. Diferentemente de um planejamento de aula convencional, o PEI transcende a aprendizagem tradicional de conteúdos, abrangendo de forma holística os aspectos sociais, emocionais e motores do desenvolvimento do estudante.
A elaboração do PEI é um processo eminentemente colaborativo, envolvendo uma equipe multidisciplinar que pode incluir professores, coordenadores pedagógicos, a família do aluno e, quando necessário, profissionais de saúde e outros especialistas externos. Essa natureza colaborativa garante que o plano seja abrangente e reflita uma compreensão completa do perfil do estudante.
Os objetivos centrais do PEI estão alinhados aos princípios da educação inclusiva e visam:
Em suma, o PEI funciona como um roteiro estratégico que formaliza o compromisso da instituição de ensino em oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento integral do aluno, transformando a retórica da inclusão em prática pedagógica documentada e sistemática.
A obrigatoriedade e a legitimidade do PEI no Brasil não derivam de uma única norma, mas de um robusto e convergente arcabouço legal que solidifica os princípios da educação inclusiva. A base fundamental reside na Constituição Federal de 1988, que consagra a educação como um direito de todos e dever do Estado e da família.
A legislação infraconstitucional detalha essa garantia. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996) estabelece, em seus artigos 58 e 59, a oferta de serviços de apoio especializado, como o Atendimento Educacional Especializado (AEE), para atender às particularidades dos alunos público-alvo da educação especial, categoria que inclui explicitamente os estudantes com altas habilidades ou superdotação (AH/SD).
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI – Lei nº 13.146/2015) reforça e detalha essa obrigação. Em seu artigo 28, a LBI prevê a incumbência do poder público em assegurar um sistema educacional inclusivo, o que implica a oferta de um projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, bem como o desenvolvimento de planos de atendimento individualizados.
É importante notar que, embora o termo “Plano Educacional Individualizado” não seja explicitamente referenciado em todas as leis federais, o direito a um planejamento educacional que responda às necessidades específicas do aluno é inequivocamente garantido. A ausência da nomenclatura exata não invalida a obrigação legal da escola de criar e documentar as estratégias adaptadas. A convergência entre a LDB, a LBI e a Constituição cria uma base jurídica sólida que torna o PEI uma ferramenta não apenas recomendável, mas uma exigência legal implícita para a efetivação do direito à educação inclusiva.
Um avanço significativo na interpretação dessa legislação veio com a Nota Técnica nº 04/2021 do Ministério da Educação (MEC). Este documento esclarece que a elaboração do PEI deve ocorrer sempre que for identificada a necessidade pedagógica, independentemente da existência de um laudo médico ou diagnóstico clínico. Essa orientação representa uma mudança de paradigma fundamental, transferindo o gatilho para a elaboração do PEI do campo médico para o pedagógico. A responsabilidade de identificar a necessidade e iniciar o processo passa a ser da equipe escolar, com base em suas avaliações e observações. Isso é particularmente vital para alunos com AH/SD, cuja identificação depende mais da observação de comportamentos e desempenho do que de um diagnóstico clínico formal, removendo uma barreira histórica que muitas escolas impunham ao exigir um “laudo” para oferecer suporte especializado.

O PEI não é um documento estático, elaborado no início do ano letivo e arquivado. Pelo contrário, sua natureza é dinâmica e processual, concebida para evoluir junto com o aluno. A legislação e as boas práticas pedagógicas preveem que o plano seja revisado e atualizado regularmente — no mínimo, uma vez por período letivo — para garantir que ele continue relevante e eficaz.
Seu funcionamento segue um ciclo contínuo e interativo, que compreende quatro etapas principais :
Essa estrutura cíclica assegura que o PEI permaneça focado no desenvolvimento pleno do estudante, adaptando-se a novas necessidades e celebrando os progressos alcançados, consolidando-se como uma ferramenta viva de inclusão.
No Brasil, os alunos com altas habilidades/superdotação (AH/SD) são legalmente reconhecidos como público-alvo da Educação Especial. A definição oficial adotada pelo Ministério da Educação (MEC), utilizada inclusive nos questionários do Censo Escolar, caracteriza esses estudantes como aqueles que “apresentam elevado potencial intelectual, acadêmico, de liderança, psicomotor e artístico, de forma isolada ou combinada, além de apresentarem grande criatividade e envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse”.
Essa definição é multidimensional e alinha-se a concepções teóricas contemporâneas que superam a visão restrita da superdotação como sinônimo de um alto Quociente de Inteligência (QI). Um dos modelos mais influentes que dialoga com a perspectiva do MEC é a “Concepção dos Três Anéis” de Joseph Renzulli. Segundo este modelo, o comportamento de superdotação manifesta-se a partir da interação de três agrupamentos de traços humanos: habilidade acima da média, envolvimento com a tarefa (motivação) e criatividade.
A inclusão dos alunos com AH/SD na categoria de “educação especial” gera um paradoxo conceitual que precisa ser cuidadosamente gerenciado pelas escolas. Enquanto a categoria é frequentemente associada a dificuldades de aprendizagem e à necessidade de remediação, para o aluno superdotado, a “necessidade educacional especial” é a demanda por maior desafio, complexidade e profundidade curricular. O PEI, nesse contexto, torna-se o instrumento fundamental para diferenciar o
tipo de necessidade especial, garantindo que a resposta pedagógica seja de enriquecimento e aceleração, e não de simplificação.
Os estudantes com AH/SD exibem um conjunto de características que, embora variem em intensidade e combinação, fornecem um perfil geral para sua identificação e planejamento educacional.

Uma das características mais definidoras e desafiadoras da superdotação é o desenvolvimento assíncrono. Este termo descreve a disparidade acentuada entre os diferentes domínios do desenvolvimento de um indivíduo. Um estudante superdotado pode possuir a capacidade cognitiva de um adolescente, mas o desenvolvimento emocional e social de uma criança de sua idade cronológica, ou até mais jovem.
Essa assincronia é a principal razão pela qual um currículo padronizado, projetado para o aluno “médio” de uma determinada idade, falha em atender às suas necessidades. Um sistema que pressupõe um desenvolvimento síncrono entre as áreas cognitiva, social e emocional será, por definição, inadequado para eles. O descompasso pode gerar uma intensa experiência interna de inadequação e isolamento. O aluno pode se sentir “diferente” de seus colegas, com interesses e preocupações que não são compartilhados, dificultando a formação de amizades e a integração social.
Essa dissonância interna é a justificativa central para a necessidade de um plano individualizado. O PEI é a única ferramenta pedagógica formal que permite à escola planejar intervenções distintas para diferentes domínios do desenvolvimento. Ele pode, por exemplo, estabelecer metas acadêmicas avançadas que desafiem o intelecto do aluno, ao mesmo tempo em que define objetivos para o desenvolvimento de habilidades sociais e de regulação emocional, abordando diretamente as tensões geradas pela assincronia.
Apesar das estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outras entidades sugerirem que entre 5% e 15% da população possui altas habilidades em alguma área, o Brasil enfrenta um grave problema de subnotificação. O Censo Escolar identifica um número de alunos com AH/SD que representa apenas uma pequena fração do total estimado, indicando que milhões de estudantes talentosos permanecem “invisíveis” no sistema educacional.
Os principais desafios para uma identificação eficaz incluem:
Para superar esses desafios, o processo de identificação deve ser multimodal e contínuo, não se restringindo a um único evento ou teste. Recomenda-se uma abordagem que combine múltiplas fontes de informação, como a nomeação por professores e pais, a análise de portfólios e produções do aluno, observações comportamentais e, quando apropriado, testes psicológicos e de desempenho. A dependência exclusiva de testes de QI é considerada perigosa e insuficiente, pois pode não capturar talentos em áreas não acadêmicas ou em estudantes de contextos socioeconômicos desfavorecidos.

O ambiente escolar regular, com seu currículo padronizado e ritmo de ensino voltado para a média da turma, frequentemente se torna um espaço de subestimulação para o aluno com AH/SD. A rapidez com que esses estudantes assimilam novos conteúdos faz com que o currículo se esgote rapidamente, resultando em longos períodos de monotonia e repetição. Essa falta de desafio intelectual é uma das principais causas de tédio, desinteresse e desmotivação crônica.
Este estado de desengajamento pode levar a um fenômeno paradoxal conhecido como sub-rendimento (ou underachievement), no qual um aluno de alto potencial apresenta um desempenho acadêmico mediano ou até mesmo baixo. Sem estímulos que capturem sua curiosidade e desafiem suas habilidades, o estudante pode se “desligar” do processo de aprendizagem, adotando comportamentos que mascaram seu verdadeiro potencial. Esses comportamentos podem incluir apatia, recusa em fazer tarefas consideradas “fáceis demais”, ou até mesmo atitudes disruptivas para aliviar o tédio.
Nesse contexto, os comportamentos resultantes da subestimulação — como desatenção, agitação ou baixo desempenho — são frequentemente mal interpretados pela escola. Em vez de serem vistos como um sintoma de um currículo inadequado, são erroneamente diagnosticados como TDAH, transtornos de aprendizagem ou problemas comportamentais. O PEI surge, então, como uma medida preventiva e diagnóstica crucial. Ao introduzir desafios e atividades de enriquecimento alinhadas aos interesses do aluno, o plano permite verificar se os comportamentos problemáticos diminuem ou desaparecem. Se um aluno “desatento” se torna hiperfocado ao trabalhar em um projeto de seu interesse, isso indica fortemente que a causa raiz era a falta de estímulo, não um transtorno neurológico. O PEI, portanto, formaliza o compromisso da escola em ajustar o ambiente ao aluno, e não o contrário.

O desenvolvimento de um aluno com AH/SD não se resume ao seu intelecto. A intensidade emocional, o perfeccionismo e a sensibilidade aguçada são traços intrínsecos que demandam atenção e suporte específicos. Sem um ambiente que compreenda e acolha essas características, o estudante pode desenvolver ansiedade, frustração e um autoconceito negativo, sentindo-se inadequado ou “estranho”.
O isolamento social é outro risco significativo. Devido ao desenvolvimento assíncrono, seus interesses, vocabulário e senso de humor podem ser muito diferentes dos de seus colegas de mesma idade, dificultando a criação de laços de amizade e gerando sentimentos de solidão. A escola, muitas vezes, foca exclusivamente no desenvolvimento cognitivo, negligenciando a dimensão afetiva e social, que é igualmente crucial para o bem-estar e o sucesso a longo prazo.
O PEI é a ferramenta ideal para formalizar e garantir que as necessidades socioemocionais sejam atendidas. Ele permite a inclusão de metas específicas que vão além do acadêmico, como o desenvolvimento de habilidades de comunicação, estratégias para lidar com o perfeccionismo, e a promoção de interações sociais positivas. O plano pode prever sessões com o psicólogo escolar, a participação em grupos de habilidades sociais ou projetos colaborativos que incentivem o trabalho em equipe. Ao fazer isso, o PEI atua como uma ponte para o “gap” da assincronia, reconhecendo que um intelecto poderoso precisa de uma base socioemocional sólida para florescer de maneira saudável. A ausência de metas socioemocionais em um PEI para um aluno superdotado representa um plano incompleto e potencialmente prejudicial.
A necessidade de um PEI para alunos com AH/SD não é apenas uma recomendação pedagógica; é a concretização de um direito legal. O artigo 59 da LDB é explícito ao assegurar a esses estudantes “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades”. O PEI é o instrumento que operacionaliza essa garantia, traduzindo o direito previsto em lei em um plano de ação concreto e documentado.
Sem um PEI, o atendimento a esses alunos tende a ser informal, inconsistente e dependente da boa vontade de professores individuais. O plano formaliza as responsabilidades da escola, estabelece um roteiro claro e torna o processo educacional transparente e passível de acompanhamento por parte da família e da equipe gestora. Ele transforma a obrigação legal de “atender às necessidades” em um conjunto de metas mensuráveis e estratégias definidas, garantindo que a escola não está apenas tolerando a presença do aluno talentoso, mas ativamente promovendo e nutrindo seu potencial.
A construção de um PEI eficaz se inicia com uma avaliação diagnóstica abrangente e individualizada, que vai muito além da análise de notas e do desempenho em testes padronizados. O objetivo desta etapa inicial é construir um perfil holístico do estudante, compreendendo sua história de vida, seus gostos pessoais, os conhecimentos que já possui, suas áreas de maior interesse e, claro, suas necessidades específicas, sejam elas acadêmicas, sociais ou emocionais.
Este processo de avaliação deve ser, por natureza, colaborativo. Envolve a coleta de informações de múltiplas fontes:
A análise de portfólios, que reúnem produções significativas do estudante em suas áreas de talento, também é uma ferramenta valiosa nesta fase.
Com base nos dados coletados na avaliação, a equipe elabora as metas e objetivos do PEI. Para que sejam eficazes, esses objetivos devem seguir a metodologia SMART :
Essas metas devem abranger não apenas as habilidades acadêmicas, mas também competências de comunicação, interação social, autonomia e regulação emocional, garantindo uma abordagem integral. A participação do aluno na definição dessas metas é fundamental. Quando o estudante superdotado se torna coautor de seu próprio plano, seu nível de engajamento e comprometimento com as tarefas aumenta significativamente, transformando o PEI de uma imposição externa em um projeto pessoal.
Um PEI bem estruturado funciona como um documento organizador e um hub de comunicação para toda a equipe. Ele cria uma linguagem comum e um ponto de referência único, garantindo que todos os envolvidos — professor da sala regular, especialista do AEE, família e terapeutas externos — trabalhem de forma coesa e alinhada. Para isso, o documento deve conter seções claras e detalhadas :

A suplementação curricular é o cerne do atendimento educacional para alunos com AH/SD. Ela consiste em ir além do currículo regular, oferecendo experiências de aprendizagem que sejam compatíveis com seu alto potencial. As principais estratégias, que devem ser detalhadas no PEI, são o enriquecimento, a aceleração e o agrupamento.
O enriquecimento curricular é a estratégia mais comum e flexível para atender aos alunos com AH/SD na escola regular. Em vez de simplesmente avançar o aluno para conteúdos de séries futuras, o enriquecimento busca modificar o currículo da série atual para torná-lo mais profundo, amplo e complexo. É uma abordagem que suplementa o currículo comum, não o substitui, e é um componente central do Atendimento Educacional Especializado (AEE).
As atividades de enriquecimento podem ser organizadas de diversas formas:
O PEI deve especificar quais tipos de enriquecimento serão oferecidos, em quais disciplinas e com que frequência, garantindo que a estratégia seja implementada de forma sistemática e intencional.
A aceleração de estudos é uma prática que ajusta o ritmo da escolarização ao ritmo de aprendizagem do aluno, permitindo que ele avance mais rapidamente pelas séries ou etapas escolares. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê essa possibilidade, mas sua implementação prática ainda enfrenta desafios devido à falta de normativas claras em muitos sistemas de ensino. Projetos de lei recentes buscam sanar essa lacuna, estabelecendo critérios mais definidos para o processo.
Existem diversas modalidades de aceleração, incluindo:
A decisão de acelerar um estudante deve ser cuidadosamente ponderada pela equipe do PEI. É fundamental realizar uma avaliação que considere não apenas a prontidão acadêmica e intelectual do aluno, mas também sua maturidade social e emocional. A aceleração pode ser uma solução altamente eficaz para alguns, mas inadequada para outros. O PEI deve documentar a justificativa para a decisão, os critérios utilizados e o plano de acompanhamento para garantir uma transição bem-sucedida.

Oportunidades de interação com pares intelectuais são vitais para o desenvolvimento social e a motivação do aluno com AH/SD. O agrupamento por habilidade ou interesse, mesmo que por períodos curtos, pode proporcionar o senso de pertencimento e o desafio intelectual que muitas vezes faltam na sala de aula heterogênea.
As mentorias, por sua vez, oferecem um nível de aprofundamento que a escola raramente consegue proporcionar. Conectar o aluno a um especialista — um cientista, um artista, um escritor, um programador — pode ser uma experiência transformadora, oferecendo orientação avançada, inspiração e uma visão do mundo profissional. O PEI pode prever a busca por mentores na comunidade local, em universidades ou em empresas, formalizando essa parceria como parte da estratégia educacional do aluno.
Essas estratégias não são mutuamente exclusivas. Um PEI robusto frequentemente combina elementos das três abordagens, criando um plano verdadeiramente personalizado. Por exemplo, um aluno pode ter seu currículo de matemática compactado (aceleração), participar de um clube de robótica (agrupamento e enriquecimento) e ser orientado por um engenheiro de uma empresa local (mentoria).
| Área de Habilidade | Estratégia de Enriquecimento | Estratégia de Aceleração | Estratégia de Agrupamento/Mentoria | Ferramentas e Recursos |
| Lógico-Matemática | Projetos de pesquisa em tópicos avançados (ex: teoria dos jogos, criptografia). Participação em Olimpíadas de Matemática e Física. | Compactação do currículo de matemática e ciências. Matrícula em disciplinas de cálculo ou física de nível superior. | Clubes de programação, xadrez ou robótica. Mentoria com um pesquisador, engenheiro ou cientista de dados. | Plataformas de cursos online (Coursera, edX), softwares de simulação, laboratórios de ciências, kits de robótica. |
| Linguístico-Verbal | Criação de um jornal escolar, blog literário ou podcast. Projetos de escrita criativa (contos, poesias, roteiros). Participação em concursos de oratória e debate. | Avanço em disciplinas de língua portuguesa e literatura. Estudo de línguas estrangeiras em nível avançado. | Grupos de leitura e debate literário. Oficinas de escrita com autores locais. Mentoria com um jornalista, escritor ou advogado. | Bibliotecas, softwares de edição de texto e áudio, plataformas de publicação online, acesso a periódicos e jornais. |
| Artística (Visual/Musical) | Desenvolvimento de um portfólio artístico aprofundado. Estudo de história da arte ou teoria musical. Criação de projetos de arte pública ou composições originais. | Conclusão antecipada de disciplinas de artes para focar em estudos especializados. | Participação em grupos de teatro, orquestras ou ateliês de arte. Mentoria com um artista plástico, músico ou curador de museu. | Materiais de arte de qualidade profissional, instrumentos musicais, softwares de design gráfico e edição de áudio/vídeo, acesso a museus e concertos. |
| Liderança/Social | Liderança de projetos de serviço comunitário ou campanhas de conscientização na escola. Organização de eventos escolares. | Participação em programas de governo estudantil ou grêmios. | Participação em simulações da ONU (MUN), grupos de debate, equipes de projetos. Mentoria com um líder comunitário, político ou empreendedor social. | Ferramentas de gerenciamento de projetos, acesso a organizações não governamentais, manuais de liderança e comunicação. |
| Psicomotora | Treinamento técnico aprofundado em um esporte ou dança. Estudo de biomecânica ou estratégia esportiva. Coreografia de peças de dança. | Avanço para equipes de categorias de idade superiores, mediante avaliação técnica. | Participação em equipes esportivas competitivas ou companhias de dança. Mentoria com um atleta profissional, técnico ou coreógrafo. | Equipamentos esportivos especializados, acesso a centros de treinamento, softwares de análise de movimento, vídeos de performances profissionais. |
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Um PEI para um aluno com AH/SD é fundamentalmente incompleto se não incluir metas explícitas para o desenvolvimento socioemocional. A negligência desta área, em favor de um foco exclusivo no avanço cognitivo, pode levar a resultados negativos como ansiedade, depressão e dificuldades de ajustamento social.
O plano deve, portanto, incorporar estratégias para fortalecer um autoconceito positivo, ajudando o aluno a compreender e valorizar suas características únicas, incluindo sua intensidade e sensibilidade. Isso pode ser feito por meio de:
O perfeccionismo pode ser um traço paralisante para muitos estudantes superdotados. O medo de não atingir padrões autoimpostos excessivamente altos pode levar à procrastinação ou à evitação de tarefas desafiadoras. O PEI pode abordar essa questão com metas como:
Ao integrar essas metas socioemocionais, o PEI garante uma abordagem holística que prepara o aluno não apenas para o sucesso acadêmico, mas para uma vida equilibrada e saudável.

A eficácia do PEI depende diretamente da qualidade da colaboração entre todos os envolvidos. Não é um documento a ser elaborado isoladamente pelo professor do AEE, mas sim o resultado de um diálogo contínuo e de uma construção conjunta.
Este processo colaborativo, além de enriquecer o plano, também serve como uma poderosa ferramenta de formação em serviço. O professor da sala regular, ao trabalhar em conjunto com o especialista do AEE na elaboração de um PEI, adquire novas competências em diferenciação pedagógica e aprofunda seu conhecimento sobre as AH/SD, capacitando-se para atender melhor não apenas aquele aluno, mas todos os futuros estudantes com perfis semelhantes.
A implementação do PEI ocorre em dois eixos complementares. Na sala de aula regular, o professor utiliza estratégias de diferenciação curricular, como oferecer tarefas mais complexas, permitir que o aluno trabalhe em projetos independentes após concluir as atividades regulares, ou formar grupos flexíveis para desafios específicos.
No Atendimento Educacional Especializado (AEE), que ocorre preferencialmente no contraturno escolar, o aluno tem a oportunidade de trabalhar de forma mais aprofundada em suas áreas de talento, com o suporte de um professor especialista e recursos adequados. O AEE não substitui a escolarização comum, mas a suplementa, oferecendo o espaço e o tempo para as atividades de enriquecimento que nem sempre são viáveis na sala de aula regular.
O PEI é um documento vivo que exige acompanhamento constante. A avaliação do seu sucesso não pode se basear apenas em notas ou testes tradicionais, que podem não capturar a profundidade do aprendizado em projetos complexos e criativos.
O monitoramento deve ser um processo contínuo, utilizando uma variedade de instrumentos :
A equipe do PEI deve se reunir periodicamente (por exemplo, a cada trimestre) para analisar esses dados, discutir o progresso do aluno em relação às metas estabelecidas e decidir sobre eventuais ajustes ou novas direções para o plano. Essa reavaliação garante que o PEI permaneça relevante e continue a promover o máximo desenvolvimento do potencial do estudante.
O Brasil possui um histórico de políticas públicas voltadas para as altas habilidades/superdotação, mas essa trajetória tem sido marcada pela descontinuidade e fragmentação de ações, o que compromete a consolidação de um atendimento sistêmico e de longo prazo.
Um marco importante foi a criação, a partir de 2005, dos Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) em todas as unidades da federação, em uma parceria entre o MEC e as secretarias de educação. Esses núcleos foram concebidos para serem centros de referência, com a missão de:
Apesar de sua importância conceitual, a efetividade dos NAAH/S tem variado significativamente entre os estados, com muitos enfrentando desafios relacionados à falta de recursos, descontinuidade de projetos e ausência de um acompanhamento e fiscalização adequados por parte do poder público. A existência de uma política no papel nem sempre se traduz em serviços de qualidade na ponta. O sucesso de um PEI individual (nível micro) está, portanto, intrinsecamente ligado à robustez e à consistência das políticas públicas e das estruturas de apoio (nível macro). A defesa do direito de um aluno a um PEI eficaz é, em última análise, uma defesa por políticas educacionais mais fortes e consistentes para todos os estudantes com AH/SD.
A implementação generalizada e eficaz de PEIs para alunos com AH/SD no Brasil enfrenta três obstáculos sistêmicos principais:

O Plano Educacional Individualizado, quando bem elaborado e implementado, transcende sua função de documento burocrático para se tornar um verdadeiro catalisador de talentos, gerando benefícios em múltiplas esferas.
Para que o PEI se torne uma realidade acessível e eficaz para todos os alunos com AH/SD no Brasil, é imperativo um esforço coordenado em várias frentes. As seguintes recomendações são essenciais:
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