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Se você tem Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) ou convive com alguém que tenha, a palavra “sobrecarga” provavelmente é familiar. Muitas vezes, a superdotação é resumida a mitos sobre alto QI ou desempenho acadêmico impecável. Mas a verdade é muito mais profunda.
A superdotação é, em sua essência, um “processamento cerebral diferente”, uma experiência de vida marcada pela intensidade.
Essa intensidade, quando não compreendida, pode levar a uma sensação de “sobrecarga” constante. A vida do superdotado é, por natureza, uma “montanha-russa” emocional, intelectual e sensorial.
Mas o que causa essa sobrecarga? O psicólogo polonês Kazimierz Dabrowski nos deu a resposta com sua Teoria das Sobre-Excitabilidades (SEs). Ele as definiu como uma “tendência para reagir intensa e sensivelmente a estímulos” , uma responsividade neurológica “mais elevada que a média”.
É crucial entender: Sobre-Excitabilidades não são transtornos, doenças ou problemas a serem “curados”. Elas são traços inatos da neurodiversidade, e são o motor para um desenvolvimento psicológico avançado.5
Vamos decodificar a “sobrecarga” explorando os cinco tipos de Sobre-Excitabilidade (SEs) que definem a experiência superdotada.

A SE Psicomotora é uma “alta energia física” e uma “necessidade constante de movimento”. Não é uma preferência, é uma necessidade neurológica.
A “sobrecarga” aqui é, na verdade, uma subcarga: é a energia bloqueada. Isso acontece quando um ambiente (como uma sala de aula ou reunião) exige imobilidade. Essa energia contida pode se transformar em:
A chave não é suprimir, mas direcionar.

É uma sensibilidade aguçada dos cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. O indivíduo vivencia o mundo em “alta definição”.
Quando o cérebro é inundado por mais estímulos do que pode processar, o resultado é o meltdown sensorial: um “bloqueio” ou “explosão emocional”.
Isso não é uma birra ou comportamento intencional. É uma reação neurológica involuntária à dor sensorial, que é um gatilho direto para a desregulação emocional. A tensão sensorial não gerenciada também pode buscar saídas em comportamentos como alimentação excessiva; compra compulsiva; masturbação, numa tentativa de saída para aliviar a tensão interna.
O foco é a modulação ambiental.

Esta é a SE mais associada à superdotação. É uma “sede constante por conhecimento”, curiosidade insaciável e uma mente que “pensa sobre o próprio pensamento” (metacognição).
A sobrecarga intelectual tem duas faces opostas:
Uma mente que questiona não é “desafiadora” ou “rude”; ela está exercendo integridade intelectual.

Uma extraordinária riqueza de ideias, criatividade, imaginação vívida e uma forte inclinação para artes, escrita ou invenções. Em seu extremo, pode se manifestar como Hiperfantasia.
A “sobrecarga” aqui não é a fantasia, mas a vergonha e o medo associados a ela. Muitos escondem essa característica temendo ser “delirantes” ou estar “com o pé fora da realidade”.
Frequentemente, esse mundo interno é um refúgio vital contra um mundo real que é sensorialmente avassalador, emocionalmente doloroso ou intelectualmente entediante.

Esta é talvez a SE mais impactante, pois amplifica todas as outras. É definida por “sentimentos intensos e profundos” e uma vida emocional que é uma “montanha-russa”.
A sobrecarga emocional é dupla: vem de sentir as próprias emoções e de absorver as emoções dos outros.

O maior desafio para superdotados é o diagnóstico incorreto. As manifestações das SEs (agitação, “desatenção” por tédio, intensidade emocional, sensibilidade sensorial) se sobrepõem muito aos critérios de TDAH, Transtornos de Ansiedade e Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O diagnóstico diferencial deve olhar a causa interna, não apenas o comportamento externo.
A criança agitada (SE Psicomotora) ou que “sonha acordada” (SE Imaginativa) é frequentemente rotulada com TDAH.
A SE Emocional já inclui alta ansiedade como um traço de personalidade. A confusão é entre “ansiedade como traço” e “ansiedade patológica” (um transtorno clínico). Um estudo de caso da PUC-Rio mostrou um estudante com alta SE Intelectual e que relatava “prejuízo emocional”, mas que não apresentou nenhum tipo de ansiedade clínica nos testes (MASC). O sofrimento era real, mas a origem era a SE, não um transtorno.
Ambos podem ter interesses intensos, hipersensibilidade sensorial e isolamento social.
Tabela 1: Resumo do Diagnóstico Diferencial (SE vs. TDAH vs. TEA)
| Característica Observável | Fonte na Superdotação (SE) | Fonte no TDAH | Fonte no TEA |
| Desatenção / Inatenção | Tédio (SE Intelectual); Fuga para “Hiperfantasia” (SE Imaginativa). Foco intenso em áreas de interesse. | Déficit de função executiva; dificuldade em sustentar o foco. | Dificuldade em mudar o foco; foco intenso em interesses restritos. |
| Agitação / Hiperatividade | Alta energia (SE Psicomotora); necessidade de movimento para pensar. Pode cessar se o ambiente for ajustado (tédio). | Impulsividade; déficit no controle inibitório. | Comportamentos repetitivos (estereotipias) para autorregulação sensorial. |
| Sensibilidade Sensorial | SE Sensorial: Amplificação dos sentidos; leva ao prazer estético ou à sobrecarga. | A sensibilidade não é um critério diagnóstico central. | Padrões de hipo ou hipersensibilidade; parte central do diagnóstico. |
| Dificuldade Social / Isolamento | SE Emocional/Intelectual: Isolamento por se sentir “diferente”; tédio com pares; prefere adultos. | Impulsividade; interrompe os outros; dificuldade em “ler” o ambiente por desatenção. | Dificuldade intrínseca na comunicação social e interação recíproca. |
| Intensidade Emocional | SE Emocional: Empatia profunda; senso de justiça aguçado; ansiedade como traço. | Desregulação emocional; “pavio curto”; reatividade/impulsividade. | Dificuldade em nomear/expressar emoções; meltdowns por sobrecarga. |
Para complicar, é absolutamente possível ter ambos (Dupla Excepcionalidade). A superdotação pode mascarar o TDAH, e o TDAH pode mascarar a superdotação. Nesses casos, uma avaliação multidisciplinar capacitada é “extremamente importante”.

O maior sofrimento para um indivíduo superdotado não são suas intensidades, mas “a crença de que as Sobre-Excitabilidades de Dabrowski precisam ser ‘curadas'”.
A “sobrecarga” vira sofrimento psíquico (depressão, ansiedade) quando o indivíduo é invalidado por ser “esquisito” ou “diferente”, ou forçado a ambientes educacionais inadequados que geram tédio.
A intervenção primária é a validação. Reconhecer essas intensidades como parte da neurodiversidade é o primeiro passo para o autoconhecimento e a autoestima.
A “sobrecarga” é energia bloqueada. O objetivo não é suprimir a intensidade, mas canalizá-la. Sem apoio, essas habilidades podem ser um “fardo tremendo”. Com o apoio correto, essas mesmas intensidades são o “fundamento de uma vida criativa e produtiva”.
E você, com qual(is) dessas intensidades você mais se identifica? Compartilhe sua experiência nos comentários.
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